Marcar a primeira consulta com um psiquiatra costuma misturar alívio e receio. Alívio por finalmente buscar ajuda; receio por não saber como será a conversa, o que contar e se “vai dar tempo” de explicar tudo. A boa notícia é que não existe um jeito perfeito de se preparar. Ainda assim, alguns cuidados simples deixam o encontro mais claro, acolhedor e proveitoso — especialmente quando a consulta acontece por videochamada.
Antes de tudo: escolha um lugar que te deixe à vontade
A consulta é um espaço de cuidado, e isso começa pelo básico: privacidade. Procure um cômodo onde você consiga falar sem interrupções, feche portas e avise quem mora com você para evitar entradas inesperadas. Se não for possível ficar totalmente sozinho, fones de ouvido ajudam bastante.
Também vale separar um copo de água e deixar o celular no modo silencioso. Parece detalhe, mas evita que a conversa seja quebrada por notificações e ligações no meio de um assunto sensível.
O que “levar” quando não existe mochila
Na consulta online, o que você leva não é uma pasta, e sim informações que facilitam o entendimento do seu momento. Não precisa montar um dossiê. Um resumo honesto já ajuda muito.
Anote, se puder:
- Principais sintomas: tristeza, irritação, ansiedade, falta de foco, desânimo, crises de pânico, alterações de apetite, impulsividade, pensamentos acelerados.
- Há quanto tempo isso acontece e se houve algo que marcou o início (luto, separação, mudança de trabalho, pós-parto, doença, estresse prolongado).
- Como está o sono: dificuldade para pegar no sono, acordar várias vezes, dormir demais, pesadelos, sensação de descanso ruim.
- Rotina e energia: queda de rendimento, isolamento, falta de prazer nas coisas, cansaço sem motivo.
- Uso de substâncias: álcool, cigarro, energéticos, drogas, e até suplementos.
- Histórico familiar: casos de depressão, transtorno bipolar, ansiedade, dependência química, suicídio.
- Medicamentos atuais (inclusive para outras condições) e se você já usou remédios psiquiátricos antes, com quais efeitos.
Se você tiver exames recentes ou relatórios de outros profissionais, pode ser útil mencionar. Mas não se preocupe se não tiver nada. A conversa é o ponto de partida.
Como contar sua história sem se perder
Muita gente chega pensando: “Não sei por onde começo”. Uma forma prática é usar três blocos:
- O que está te incomodando mais (o motivo principal)
- Como isso afeta sua vida (trabalho, estudos, família, relações, autocuidado)
- O que você já tentou (terapia, mudanças de hábito, medicação, pausas, exercícios)
Não precisa “falar bonito”. O mais importante é ser verdadeiro, inclusive sobre sentimentos que dão vergonha. Psiquiatra está ali para acolher, não para julgar.
Perguntas que valem ouro na primeira consulta
Fazer perguntas não é sinal de desconfiança; é sinal de participação. Aqui vão sugestões que costumam ajudar:
- Qual é a hipótese principal para o que estou sentindo?
- Existem diagnósticos que precisam ser investigados com o tempo?
- O que pode melhorar primeiro e o que costuma levar mais tempo?
- Que sinais indicam melhora? E quais seriam sinais de alerta?
- Se houver indicação de medicação, por quê?
- Quais efeitos colaterais podem acontecer e o que eu faço se aparecerem?
- Em quanto tempo devo notar alguma mudança?
- Com que frequência serão os retornos?
- O que posso fazer fora da consulta para apoiar o tratamento?
Se você já tem medo de “ficar dependente” de remédio ou de “mudar quem você é”, coloque isso na mesa. Essas dúvidas são comuns e merecem explicação cuidadosa.
Quando vale levar alguém (mesmo à distância)
Em algumas situações, pode ser útil ter um familiar ou pessoa de confiança para ajudar com informações — por exemplo, quando há lapsos de memória, confusão intensa, oscilação de humor muito marcada ou dificuldade de explicar sintomas. Isso não significa perder privacidade: você pode pedir para a pessoa participar só por alguns minutos, ou apenas no começo.
Fechando a consulta com clareza
Antes de terminar, tente confirmar os próximos passos: se haverá retorno, quais mudanças observar, como usar uma medicação (se for prescrita), e o que fazer caso piore. Um bom Atendimento Psiquiátrico deixa você com um plano mesmo que simples e com a sensação de que não precisa carregar tudo sozinho.
A primeira consulta não precisa resolver a vida inteira. Ela precisa abrir uma porta segura para o cuidado começar.
